Reflexão cromática
Goethe, Proust e delírios
Recentemente tenho estado em contato com a obra de Goethe. Não por desconhecimento de sua importância no seio do pensamento, das artes, das ciências e do idealismo que permeou a Alemanha do século XIX como um todo. Desconhecer para então reconhecer, eis seu sentido exato. É certo que, nessa retomada, o que mais tem me chamado a atenção é sua teoria das cores.
As proposições de Goethe são criticadas por uma série de cientistas em virtude de seu caráter muito mais fisiológico (a percepção humana das cores e suas demonstrações empíricas contextuais) do que objetivo e puro das manifestações cromáticas se comparada à teoria cromática de Newton. Em uma perspectiva científica, de fato há uma procedência na crítica, mas no que sua crítica se fundamenta, igualmente se mostra uma rachadura estrutural: ciências naturais puras não podem prescindir de seus observadores e tampouco irão prescindir do caráter humano dessas experiências. Para todos os efeitos, o racionalismo puro é um delírio que não proporciona a superação do humano e muito menos sua transformação, mas o desumaniza e seus adventos têm sido historicamente registrados ao longo de todo o século XX e XXI. Sequer preciso defender esse ponto de vista uma vez que há uma fortuna crítica dessa posição muito mais articulada e profunda do que minhas elucubrações e verborragias sobre o assunto.
Desta feita, o tratado de Goethe traz o olho humano como fator contundente para a percepção cromática. Não somente sua percepção pura, mas, sobretudo, sua mistura: o entendimento da combinação entre a claridade e a escuridão como fatores constitutivos para percepção e até exibição do que das cores nos alcança. Disso podemos alcançar ainda um aspecto mais ramificado e importante dessa especificidade, a saber, que a claridade e a escuridão são determinantes da percepção dos seres vivos e fundamentam seu trâmite pela experiência existencial de forma geral, tanto na observação dos objetos como espaço, como suas fortuidades de percepção no tempo. Sendo assim, na construção bíblica do Antigo Testamento de que da escuridão teria se feito a luz (também observada em Hesíodo) mostra uma demonstração de um monismo bífido ou, evitando uma eventual contradição, de que o princípio é, na verdade, anarquia e confusão e há uma coabitação desses elementos na experiência cósmica regular e cotidiana dos viventes.
Essa constatação parece coadunar com certo proceder do viver humano de que o que está visto (evidente) detém algo no qual a luz não alcança ou, nos termos de Goethe, contém em si escuridão. A amarelidão da luz é, também, sua azuleza radical e variável conforme o contexto colorífico ao redor dos fenômenos. Disso decorre uma inclinação recorrente da opsis humana para fazer do vislumbrar a constatação do que também, na escuridão, é difícil de identificar. Aqui, me parece que repousa elemento constitutivo de todo o monológio desse texto, assertivamente, de que a dualidade clareza-escuridão de Goethe, para além de meros fenômenos cromáticos contidos na esfera da percepção ótica em sentido fisiológico, são também desdobramentos do caráter de cuidado (sorge, no alemão) do ser vivo com o que lhe rodeia quanto ao que pode ser por ele visto e aquilo pelo qual lhe escapa e é visto na sua ausência de percepção. Essa justaposição determinante em Goethe no que se refere à manifestação cromática encontra terreno próspero em uma série de pensadores, inclusive para além de uma dinâmica rigorosamente dialética, frutos do período histórico de Goethe, por exemplo. O cuidado é também a atenção manifesta do vivente com aquilo que o rodeia, seja naquilo que pode constatar, seja naquilo que, definitivamente, lhe falta.
Proust é um desses pensadores que muito bem explorou a controversa dinâmica amarelo-azul da existência. Interessado sobremaneira pelo impressionismo, o autor nunca perdeu de vista que nas práticas pigmentadoras do tempo, como é o caso das relações amorosas e a própria investigação temporal, que tateia 3500 páginas para o entendimento de si mesma como projeto da experiência vivente. A prolixidade de Proust (que lhe rende a adjetivação injusta de "proustiano" para tudo que é excessivo) é a tentativa obsessiva de perscrutar o que as coisas têm a dizer naquilo que podemos ver, especialmente aquilo que perdemos e que nos está em falta. É exatamente por isso que mestre da constatação terrível da falta, Walter Benjamin, dê importância para o fazer poético que busca desvelar a experiência que, como melancolicamente evoca o filósofo, se perdeu na destruição da lingua primordial na torre de Babel e insistentemente tentamos retomar. É a cor da presença, tão construída na obscuridade da falta, que se salienta na experiência ordinária e, costumeiramente, passa despercebida por ver a falta e o escondido como não-visto.
Em um período como o nosso que tem sido marcado por uma insistente demarcação da visibilidade diretamente proporcional à sapiência e ao conforto de que tudo está descoberto pelas ciências e pelos especuladores da sociedade sob a pretensa idealidade de um partilhar experiências porque a tela está no meu bolso ou dentro da minha casa, o invisível tem se tornado elemento marginal. A sociedade das imagens, atribuída sobremaneira aos medievais em seu conduzir da iluminura (e também da iconoclastia) tem sido reificada pelo contemporâneo que quer escrever pela luz das mínimas voltagens dos dispositivos sem de fato, compreender a experiência do obscuro como constitutiva desse iluminar. Nesse sentido, Goethe é ainda uma figura elementar: clareza e escuridão são as dimensões cromáticas do olhar humano em relação ao mundo e, nisso, é que mora o cuidado.
